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Alexandre Campos analisa os dados do AXA Mind Health Report 2026 no Brasil

O vice-presidente da AXA no Brasil, analisa dados do Mind Health Report 2026 sobre uso de inteligência artificial, confiança nas plataformas, barreiras ao atendimento, saúde mental no trabalho e limites para o uso da tecnologia.
Alexandre Campos analisa os dados do AXA Mind Health Report 2026 no Brasil

Sete em cada dez brasileiros ouvidos pelo AXA Mind Health Report 2026 afirmam já ter recorrido à inteligência artificial para questões relacionadas à saúde mental e, entre esses usuários, 40% dizem confiar mais nas plataformas do que em profissionais da área para receber conselhos. Na primeira participação do Brasil no levantamento, o país registrou 59,8 pontos no Mind Health Index, estabelecendo uma referência inicial para acompanhar a evolução desses indicadores nas próximas edições. Em entrevista à Insurtalks, Alexandre Campos, vice-presidente de RH, Jurídico, Compliance e ASG da AXA no Brasil, analisa o que pode ajudar a explicar a adesão dos brasileiros à IA e discute em que situações a tecnologia pode oferecer apoio e quando o acompanhamento profissional é necessário.

A conversa aborda ainda privacidade, segurança e transparência no tratamento de informações sensíveis, além do contraste no ambiente de trabalho, no qual quase metade dos profissionais entrevistados afirma que não falaria sobre problemas de saúde mental na empresa, embora 88% demonstrem disposição para participar de programas oferecidos pelo empregador. O executivo comenta também os níveis de estresse relacionados ao trabalho, o Check-in de Saúde Mental adotado pela AXA e como os dados brasileiros podem orientar iniciativas de prevenção e assistência no país. Essas e outras questões orientam a conversa a seguir.

Insurtalks: O Brasil participou pela primeira vez do Mind Health Report e registrou 59,8 pontos no Mind Health Index. O que esse primeiro retrato do país revelou à AXA que merece ser acompanhado com mais atenção nas próximas edições?

Alexandre Campos: A entrada do Brasil no estudo é importante justamente porque nos permite transformar percepções em evidências e acompanhar a evolução do tema ao longo do tempo. O resultado de 59,8 pontos mostra um cenário que merece atenção, especialmente porque estamos falando de um país com desafios importantes relacionados ao acesso ao cuidado, ao estresse e à forma como as pessoas lidam com a própria saúde mental.

Um ponto que chama a atenção é a combinação entre a busca crescente por soluções e a existência de barreiras para chegar ao cuidado adequado. Também precisamos observar como fatores como idade, gênero, condições de trabalho e contexto social influenciam essa experiência. Para as próximas edições, será importante entender não apenas se os índices melhoram ou pioram, mas quais fatores estão por trás dessas mudanças e onde empresas e sociedade podem atuar de maneira mais efetiva.

Insurtalks: Sete em cada dez brasileiros entrevistados disseram já recorrer à inteligência artificial para questões relacionadas à saúde mental. Na avaliação da AXA, o que ajuda a explicar essa adesão no Brasil?

Alexandre Campos: A inteligência artificial está se tornando uma ferramenta cada vez mais presente na vida das pessoas, e a saúde mental não está fora desse movimento. No Brasil, acredito que essa adesão também esteja relacionada à facilidade de acesso, à disponibilidade 24 horas por dia e à possibilidade de buscar uma primeira orientação de maneira privada, sem necessariamente precisar expor sua situação a outra pessoa.

Os dados do estudo também precisam ser lidos à luz das barreiras existentes para o acesso ao cuidado. Quando custo, disponibilidade de profissionais e falta de tempo dificultam a busca por atendimento, uma ferramenta que está literalmente a poucos cliques pode parecer uma alternativa mais simples. Isso não significa que a tecnologia substitua o cuidado profissional, mas mostra que existe uma demanda por soluções mais acessíveis, imediatas e disponíveis.

Insurtalks: Entre os brasileiros que utilizam IA para essas questões, 40% dizem confiar mais nas plataformas do que em profissionais de saúde mental para receber conselhos. Onde a AXA entende que deve estar a fronteira entre o apoio oferecido pela tecnologia e o cuidado que exige acompanhamento profissional?

Alexandre Campos: A fronteira precisa ser muito clara. A tecnologia pode desempenhar um papel importante na prevenção, na educação, na identificação de sinais de atenção e no incentivo à busca por ajuda. Mas ela não deve ser tratada como substituta de um profissional capacitado, especialmente diante de situações que exigem avaliação clínica, diagnóstico ou acompanhamento individualizado, além de uma sensibilidade que só aparece com a análise de um ser humano.

O fato de 40% dos usuários declararem confiar mais na IA do que em profissionais é justamente um sinal de alerta. Quanto maior a confiança depositada nessas ferramentas, maior deve ser a responsabilidade sobre como elas são utilizadas. Na nossa visão, tecnologia e cuidado profissional devem ser complementares: a primeira pode ajudar a ampliar o acesso e criar uma porta de entrada, enquanto o segundo permanece essencial para situações que demandam intervenção especializada.

Insurtalks: Custo, acesso a profissionais e falta de tempo estão entre os principais motivos citados pelos brasileiros para não procurar atendimento. Como essas barreiras influenciam a maneira como uma seguradora pode pensar o acesso ao cuidado em saúde mental?

Alexandre Campos: Essas barreiras mostram que ampliar o acesso não significa apenas disponibilizar um profissional. É preciso pensar em soluções que considerem a realidade das pessoas, oferecendo diferentes portas de entrada e possibilidades de cuidado, além de ser importante que crie-se políticas públicas com foco nessa área.

Para uma seguradora, isso significa olhar para a saúde mental também sob a perspectiva da prevenção e do bem-estar, e não somente quando já existe uma situação de adoecimento. Assistências digitais, conteúdos de orientação, ferramentas de autoconhecimento e mecanismos que ajudem a identificar quando é importante procurar um profissional podem contribuir para reduzir algumas dessas barreiras. O desafio é construir uma jornada em que a pessoa consiga encontrar o nível de suporte adequado para sua necessidade.

Insurtalks: Saúde mental envolve informações particularmente sensíveis, enquanto ferramentas digitais ocupam um espaço cada vez maior nessa relação. Que princípios deveriam orientar o uso de inteligência artificial em serviços de bem-estar e saúde oferecidos ou intermediados por empresas?

Alexandre Campos: Confiança precisa estar no centro dessa discussão. Quando falamos de saúde mental, estamos tratando de informações extremamente pessoais, e qualquer aplicação de tecnologia precisa respeitar princípios de privacidade, segurança, transparência e consentimento. Ela não pode ser mais uma camada para reforçar o tabu que existe em torno desse tema.

Também é fundamental deixar claro ao usuário qual é o papel daquela ferramenta, quais são seus limites e como seus dados serão utilizados. A tecnologia precisa ser desenvolvida para apoiar as pessoas, e não para criar novos riscos ou situações de exposição. Para empresas, isso significa estabelecer critérios claros de governança, segurança da informação e uso responsável de IA, sempre colocando a pessoa no centro da decisão.

Insurtalks: Quase metade dos profissionais brasileiros entrevistados afirma que não discutiria problemas de saúde mental no trabalho, enquanto 88% participariam de programas oferecidos pelo empregador. O que determina, na visão da AXA, se uma iniciativa corporativa será percebida pelo funcionário como apoio e não como exposição?

Alexandre Campos: A diferença está, principalmente, na confiança. Uma empresa pode oferecer o melhor programa de saúde mental do mercado, mas, se o funcionário acreditar que participar dele pode gerar algum tipo de julgamento ou impacto profissional, provavelmente não irá utilizá-lo.

Por isso, é fundamental separar cuidado de avaliação de desempenho. Os programas precisam preservar a confidencialidade, oferecer canais seguros e deixar claro que buscar apoio não representa uma fraqueza nem uma desvantagem profissional. Também é importante preparar as lideranças. Uma cultura de saúde mental não se constrói apenas com benefícios, mas com comportamentos cotidianos que mostrem às pessoas que elas podem falar sobre suas dificuldades sem medo de serem estigmatizadas.

Insurtalks: O estudo encontrou níveis elevados de estresse relacionado ao trabalho entre os brasileiros. O que uma empresa precisa observar para avaliar se suas ações de saúde mental estão realmente respondendo às dificuldades enfrentadas pelos funcionários?

Alexandre Campos: O primeiro passo é não tratar saúde mental como uma iniciativa isolada. Se os indicadores mostram níveis elevados de estresse, a empresa precisa investigar suas causas. Carga de trabalho, autonomia, relações de liderança, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, segurança psicológica e processos internos são alguns dos fatores que precisam entrar nessa análise.

Também é importante medir resultados. Participação em um programa é um indicador, mas não é suficiente. Precisamos observar se as pessoas estão efetivamente utilizando os recursos disponíveis, se percebem melhora no bem-estar, se existe maior abertura para falar sobre o tema e se os principais fatores de estresse estão sendo enfrentados. O objetivo não é simplesmente oferecer mais uma iniciativa, mas entender se ela está produzindo impacto real na experiência dos colaboradores.

Insurtalks: Como o Check-in de Saúde Mental da AXA se insere na estratégia da companhia no Brasil e o que a empresa espera aprender a partir do uso dessa ferramenta?

Alexandre Campos: O Check-in de Saúde Mental faz parte de uma estratégia mais ampla de prevenção e cuidado com as pessoas. A proposta é criar um momento de reflexão e identificação de sinais relacionados ao bem-estar, ajudando o indivíduo a compreender melhor como está e, quando necessário, buscar o suporte adequado.

Além de oferecer esse recurso aos colaboradores, a iniciativa nos ajuda a entender melhor as necessidades das nossas pessoas. O aprendizado é importante porque saúde mental não é um tema estático. As demandas mudam ao longo do tempo, e precisamos utilizar informações e escuta ativa para ajustar nossas iniciativas, sempre respeitando a privacidade individual e os princípios de confidencialidade.

Insurtalks: Depois desse primeiro levantamento com dados específicos do Brasil, de que maneira os resultados podem influenciar as próximas decisões da AXA sobre prevenção, assistências e soluções relacionadas à saúde mental no país?

Alexandre Campos: O principal valor de termos dados específicos do Brasil é poder tomar decisões mais conectadas à realidade local. O levantamento nos dá uma fotografia inicial e ajuda a identificar onde estão as maiores necessidades e barreiras, mas o mais importante será acompanhar a evolução desses indicadores e transformar os aprendizados em ações.

Para a AXA, isso significa continuar pensando em saúde mental de forma integrada, combinando prevenção, educação, acesso a assistência e soluções que possam acompanhar diferentes momentos da jornada das pessoas. Também reforça a importância de ouvir continuamente colaboradores, clientes e parceiros. O objetivo é que os dados não terminem no relatório, mas sirvam como ponto de partida para evoluirmos nossas iniciativas e contribuirmos para tornar o cuidado em saúde mental mais acessível, próximo e efetivo.

Postado em
1/9/2026
 na categoria
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