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Mordidas de cães levam 1.361 crianças à internação e abrem uma discussão sobre responsabilidade civil e seguros

Casos registrados pelo SUS cresceram entre 2020 e 2025. A alta de 43% nas internações por mordidas de cães leva o risco doméstico ao campo dos seguros.
Mordidas de cães levam 1.361 crianças à internação e abrem uma discussão sobre responsabilidade civil e seguros

Em 2025, o SUS registrou 1.361 internações de crianças por mordidas de cães, 43,4% acima das 949 contabilizadas em 2020. Esse número considera apenas os casos que exigiram internação na rede pública e, portanto, não reúne todos os ataques ou atendimentos ocorridos no país. Ainda assim, dá uma medida da gravidade de episódios que, além das consequências para a vítima, podem gerar responsabilidade financeira para o tutor do animal.

Se esses episódios podem resultar em pedidos de reparação e outros prejuízos, falta saber quantos responsáveis contavam com alguma proteção para enfrentar esse custo. A questão é que as estatísticas disponíveis não permitem saber quantos desses tutores tinham seguro para responder pelos danos causados a terceiros. Ainda que a Susep receba dados das operações registradas pelas seguradoras, suas bases públicas não apresentam um recorte que mostre quantas pessoas possuem cobertura para esse risco, ao passo que os registros de saúde informam quem precisou de internação, mas não indicam se o responsável pelo animal contava com um seguro que pudesse responder, dentro das condições e dos limites da apólice, pelas indenizações decorrentes do acidente. Essa falta de cruzamento deixa uma parte do problema pouco visível e a possibilidade de responsabilização leva o tema ao campo dos seguros.

A conta não termina no atendimento

Mordidas de cães geralmente são tratadas como questão de saúde e de cuidado com o animal, embora possam envolver despesas de tratamento, afastamento das atividades, sequelas e pedidos de reparação. Nesses casos, o prejuízo também recai sobre o tutor porque ele pode ser responsabilizado pelos danos provocados pelo animal.

Há coberturas de responsabilidade civil que podem amparar danos causados por animais domésticos a terceiros. Elas podem integrar determinados seguros residenciais ou outros produtos, mas sua existência e seu alcance dependem das regras de cada contrato. Ter uma apólice residencial, portanto, não garante por si só essa proteção. É preciso verificar se o risco está incluído, quais ocorrências são contempladas, quais exclusões se aplicam e até onde vai o limite de indenização.

Pode haver responsabilidade além da lesão física 

A extensão dos danos também pode ultrapassar o ferimento físico. A revisão de um estudo sobre os efeitos psicológicos de mordidas de cães em crianças conduzida por pesquisadores da Universidade de Liverpool e do hospital infantil Alder Hey identificou, entre os efeitos psicológicos relatados com maior frequência após mordidas de cães em crianças, transtorno de estresse pós-traumático, medo ou fobia de cães, pesadelos, ansiedade e comportamentos de evitação. Os autores ressaltam que ainda existem poucos estudos dedicados especificamente a essas consequências e às formas de tratamento, mas defendem que o atendimento considere a saúde mental das vítimas e de seus familiares para evitar o agravamento dos sintomas e prejuízos prolongados à qualidade de vida.

O estudo não permite afirmar que toda criança mordida desenvolverá efeitos psicológicos nem que qualquer acompanhamento será automaticamente coberto pelo seguro; ele mostra, porém, que a dimensão do dano pode ir além da lesão visível e do atendimento inicial. Para avaliar como uma apólice responderia, seria necessário examinar o tipo de prejuízo reconhecido, a responsabilidade atribuída ao tutor e as condições previstas no contrato.

A pergunta que o corretor precisa antecipar e o argumento pouco explorado na venda do residencial

A conversa abre, então, espaço para que o corretor introduza uma pergunta pouco frequente na contratação do seguro residencial: caso o animal cause um dano físico ou psicológico a outra pessoa, existe cobertura para a responsabilidade do tutor? A resposta não deve ser presumida, mas encontrada na apólice. Cabe ao profissional explicar o alcance da proteção, identificar eventuais ausências e evitar que o segurado descubra os limites do contrato somente depois de uma ocorrência.

Esse é um risco pouco falado nas conversas sobre proteção a terceiros, embora a convivência com animais esteja cada vez mais integrada à rotina doméstica. Com o crescimento das famílias multiespécies, especialmente em condomínios, cães circulam por elevadores, corredores, portarias e áreas de lazer, além dos passeios em ruas e praças, e essa proximidade aumenta as situações de contato com vizinhos, visitantes, funcionários e outros animais, sem que a possibilidade de um acidente necessariamente passe pela cabeça do tutor. Para o corretor, esse cotidiano oferece um ponto de partida tanto para verificar a inclusão da cobertura na apólice quanto para apresentar o seguro residencial a partir de uma responsabilidade que vai além dos danos ao imóvel e aos bens.

Antes que a possibilidade vire prejuízo

As 1.361 internações registradas em 2025 mostram a parcela mais grave e mensurável desses episódios, mas não revelam quantos tutores estavam segurados, quanto tempo as consequências acompanharam as vítimas nem quais custos permaneceram com as famílias envolvidas. Essa ausência de informação ajuda a explicar por que o tema ainda aparece de forma fragmentada: a saúde registra o atendimento, o direito define a responsabilidade e o seguro pode oferecer uma resposta financeira, mas essas três dimensões raramente são observadas em conjunto. Enquanto isso, a proteção continua dependendo de uma conversa que muitas vezes só acontece depois do dano. Antecipá-la significa incluir a responsabilidade do tutor na avaliação do risco antes que um episódio transforme uma possibilidade pouco discutida em prejuízo real.

Postado em
23/7/2026
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