Explosões e curtos de celulares: como fica o mercado de seguros?

Acidente com carregador provoca explosão de celular e causa incêndio
Um incêndio registrado em Itumbiara (GO), provocado pela explosão de um celular durante o carregamento, reacendeu o debate sobre a segurança no uso de carregadores e baterias de íons de lítio. Embora as ocorrências envolvendo smartphones chamem atenção pela frequência de uso desses dispositivos, é preciso olhar para as características particulares de diversos dispositivos que possuem componentes que podem gerar esse tipo de destruição. Presentes em notebooks, tablets, bicicletas e patinetes elétricos, sistemas de armazenamento de energia e veículos eletrificados, alguns itens podem trazer riscos e gerar estragos irreparáveis. Assim, com mais equipamentos conectados à rede elétrica, é importante que haja investimento em prevenção, infraestrutura adequada e soluções para reduzir a exposição a incêndios. Para as seguradoras, a expansão dessa tecnologia reforça a necessidade de incentivar medidas preventivas e desenvolver soluções que acompanhem a evolução da eletrificação e das novas demandas de proteção patrimonial.
Aumento no número de acidentes evidenciam a necessidade de fortalecer a prevenção
Acidentes envolvendo celulares e carregadores têm se tornado um motivo crescente de preocupação no Brasil. Nos últimos sete anos, ocorrências de choques elétricos, incêndios e explosões causaram mais de 100 mortes no país, muitas delas registradas enquanto os aparelhos estavam conectados à rede elétrica. Somente em 2025, foram contabilizadas 26 vítimas fatais decorrentes desse tipo de incidente. Carregar o celular sobre colchões, sofás ou travesseiros, utilizar adaptadores ou recorrer a carregadores e cabos sem certificação, podem aumentar significativamente o risco de superaquecimento, curtos-circuitos e incêndios. Também há registros de acidentes provocados por falhas nos equipamentos, incluindo casos de choques elétricos fatais. De acordo com especialistas, fatores como baterias deterioradas, carregadores incompatíveis, cabos danificados, instalações elétricas inadequadas e produtos de baixa qualidade estão entre as principais causas desses acidentes. Embora os fabricantes invistam continuamente em sistemas de proteção contra sobrecarga, superaquecimento e oscilações elétricas, a maioria dos casos ainda está associado ao uso inadequado dos dispositivos ou ao emprego de componentes que não atendem aos padrões de segurança.
Baterias de íons de lítio redefinem a gestão de riscos
O crescimento da utilização de baterias de íons de lítio em dispositivos eletrônicos e veículos elétricos também trouxe desafios relacionados à gestão de riscos. Embora essa tecnologia ofereça uma boa eficiência no armazenamento de energia, sua alta densidade energética exige cuidados específicos durante o carregamento, armazenamento e utilização. Entre os principais riscos está a chamada thermal runaway (fuga térmica), um processo em que uma falha interna ou fatores externos – como impactos, superaquecimento, defeitos de fabricação ou uso de carregadores inadequados – desencadeiam uma reação química descontrolada.
À medida que baterias de íons de lítio passam a equipar não apenas smartphones e notebooks, mas também sistemas de armazenamento de energia, bicicletas elétricas e veículos eletrificados, a exposição a esse tipo de risco tende a crescer. Esse cenário amplia a necessidade de medidas preventivas que envolvam toda a cadeia, desde fabricantes e consumidores até empresas. Para as seguradoras, o contexto fomenta o investimento em medidas de mitigação de riscos, incorporando tecnologias de monitoramento, inspeções preventivas, orientação aos consumidores e critérios mais específicos para assegurar os usuários, tendo em vista a prevalência de dispositivos elétricos.
A expansão dos veículos elétricos amplia o debate
O avanço da frota de veículos híbridos e elétricos vem impulsionando a instalação de carregadores em residências, empresas e condomínios, criando uma infraestrutura inédita para o setor imobiliário e para o mercado de seguros. Ao contrário dos carregadores utilizados em celulares e notebooks, baterias e equipamentos destinados aos veículos elétricos operam com maior potência e permanecem conectados por longos períodos. Isso exige instalações elétricas dimensionadas corretamente, equipamentos certificados e sistemas de proteção capazes de suportar o aumento da demanda energética. Embora os veículos eletrificados sejam desenvolvidos com múltiplos mecanismos de segurança, a infraestrutura utilizada para a recarga também influencia diretamente a gestão dos riscos. Instalações improvisadas, adaptações sem critérios técnicos ou sobrecarga da rede elétrica podem comprometer a segurança da operação e aumentar a probabilidade de falhas. Essa realidade reforça que a eletrificação da mobilidade não modifica apenas a indústria automotiva, mas também altera a forma como as seguradoras analisam riscos patrimoniais e automotivos.
Recarga de veículos em condomínios, riscos e responsabilidade
A adesão aos veículos elétricos também tem levado novos desafios aos condomínios residenciais. A instalação de carregadores nas garagens de edifícios exige que a infraestrutura elétrica dos prédios acompanhe o aumento da demanda por energia, especialmente em empreendimentos construídos antes da popularização da mobilidade elétrica. Segundo Carlos Valle, presidente do Sincor-PE, o principal risco não está nos veículos elétricos, mas na instalação de carregadores sem uma avaliação técnica da capacidade elétrica dos edifícios. "Um condomínio com muitos apartamentos, com os recentes acréscimos de consumo, como as varandas e cozinhas gourmet, está com o excedente de carga previsto na construção quase ou totalmente comprometido", destaca. Além da necessidade de modernizar as instalações elétricas, síndicos e administradoras precisam estabelecer normas para o uso dos equipamentos, investir em manutenção preventiva e definir responsabilidades em caso de incidentes. Considerando que a instalação de carregadores pode alterar o perfil de risco das edificações, algumas falhas e prejuízos podem acarretar em questões jurídicas, exigindo revisões nas coberturas patrimoniais e novas análises. Em caso de incêndios originados em equipamentos de recarga, questões relacionadas à responsabilidade civil e aos limites das apólices tendem a ganhar maior relevância.
Tecnologia fortalece uma atuação preventiva e o papel dos seguros na redução de perdas
Ao mesmo tempo em que a pulverização de veículos elétricos cria novos desafios, ela também pode propiciar o desenvolvimento de soluções voltadas à prevenção. Carregadores inteligentes, sensores de temperatura, sistemas de monitoramento remoto e dispositivos conectados podem acompanhar o funcionamento da infraestrutura elétrica em tempo real, identificando irregularidades e emitindo alertas antes que elas evoluam para incêndios ou falhas de maior proporção. Embora a inovação tecnológica desempenhe papel importante, parte dos acidentes pode ser evitada com medidas relativamente simples. Utilizar carregadores homologados pelo fabricante, evitar produtos sem certificação, substituir cabos danificados, realizar inspeções periódicas nas instalações elétricas e não carregar dispositivos sobre superfícies inflamáveis continuam sendo práticas essenciais para reduzir riscos. No caso dos veículos elétricos, recomenda-se que a instalação das estações de recarga seja realizada por profissionais especializados e em conformidade com as normas técnicas, garantindo que a infraestrutura elétrica seja compatível com a potência exigida pelos equipamentos. Para o mercado segurador, incentivar essas práticas representa uma oportunidade de fortalecer programas de gerenciamento de riscos e ampliar a conscientização dos consumidores. Além de reduzir perdas materiais, iniciativas preventivas contribuem para tornar a operação das seguradoras mais eficiente e sustentável.
Eletrificação exige uma nova visão sobre riscos
Os incêndios envolvendo celulares durante o carregamento mostram que a discussão sobre baterias, carregadores e demais equipamentos eletrônicos precisa ser tratada com mais afinco – tendo em vista o aumento no número de vítimas desses incidentes. A presença de componentes advindos de recursos tecnológicos presentes em residências, condomínios, empresas e veículos, modifica o perfil de risco de diferentes segmentos. Para as seguradoras, essa transformação exige a revisão de critérios de subscrição, o desenvolvimento de coberturas mais adequadas e investimentos em tecnologias capazes de antecipar falhas antes que elas resultem em grandes prejuízos em veículos elétricos. Além de acompanhar a evolução desses automóveis, os seguros precisam integrar prevenção, inovação e desenvolver coberturas específicas para responder aos novos riscos trazidos pela eletrificação, contribuindo para que consumidores e empresas desfrutem das tecnologias de forma mais segura e eficiente.


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