Perícia técnica fragiliza acusações no maior caso de roubo de dados do Brasil: lições para o setor de seguros

Caso Unico x Serasa expõe complexidade das investigações digitais
A disputa judicial entre Unico e Serasa ganhou novos contornos após uma perícia determinada pela Justiça questionar parte das evidências que sustentavam a acusação de um suposto roubo massivo de dados biométricos. O caso, inicialmente classificado como o “maior roubo de dados biométricos do Brasil”, teve a tese enfraquecida após os peritos não identificarem dados biométricos originários da Unico nos sistemas da Skill, empresa apontada como peça central da controvérsia. A Unico acionou judicialmente a Serasa, além da subsidiária ClearSale e da Skill, sob a alegação de que as empresas teriam participado de um esquema para formação de um suposto “banco paralelo” de dados biométricos. Entretanto, além da perícia, depoimentos prestados à polícia também colocaram em dúvida essa hipótese e acrescentaram novos elementos à investigação. Dito isso, a situação revela que registros de acessos, movimentações incomuns ou indícios de tráfego de dados não são, isoladamente, suficientes para comprovar uma violação. A análise criteriosa desses registros, a preservação adequada das evidências e a reconstrução técnica dos acontecimentos são etapas fundamentais para determinar se houve efetivamente um incidente de segurança, uma falha operacional ou outra circunstância que explique a movimentação identificada.
Perícia digital ganha espaço na gestão de riscos
O levantamento técnico identificou ainda divergências relacionadas às rotas utilizadas para acessar os sistemas da Unico, demonstrando a complexidade de rastrear movimentações em ambientes digitais e estabelecer, com precisão, a origem e o destino das informações. Dessa forma, a análise forense digital tornou-se uma ferramenta estratégica diante da sofisticação dos ataques cibernéticos e da quantidade alta de informações armazenadas em ambientes digitais. Para a ENISA, Agência da União Europeia para a Cibersegurança, a perícia digital envolve a identificação, preservação, recuperação, análise e interpretação de evidências digitais. A entidade também destaca a importância de procedimentos adequados para coleta e preservação de evidências, especialmente em investigações de incidentes cibernéticos. No mercado de seguros, essa capacidade pode ser determinante em situações que envolvem suspeitas de fraude, ataques cibernéticos, vazamento de informações ou disputas relacionadas à responsabilidade por um incidente.
Dados sensíveis ampliam responsabilidade das seguradoras
A questão ganha ainda mais relevância para o setor de seguros, que trabalha diariamente com informações pessoais, financeiras, patrimoniais e, em determinadas modalidades, dados sensíveis dos clientes. Uma falha na proteção dessas informações pode gerar consequências que ultrapassam o prejuízo financeiro. Danos reputacionais, interrupções operacionais, processos judiciais e perda de confiança podem comprometer relações construídas ao longo de anos. Nesse cenário, a segurança da informação precisa ser uma atribuição da área de tecnologia, integrando a própria estratégia de gestão de riscos das companhias. Para seguradoras, isso requer estabelecer controles capazes de monitorar acessos, identificar comportamentos fora do padrão, registrar movimentações e preservar evidências que possam ser utilizadas posteriormente em investigações.
Inteligência artificial pode reforçar prevenção e detecção de fraudes
A evolução da inteligência artificial abre novas possibilidades para esse processo. Sistemas capazes de analisar grandes volumes de dados em tempo real podem identificar padrões incomuns, cruzar informações e sinalizar comportamentos potencialmente fraudulentos antes que os prejuízos se ampliem. No entanto, a tecnologia não elimina a necessidade de análise humana. Pelo contrário, quanto mais automatizados se tornam os processos, maior é a importância de profissionais que tenham habilidades para interpretar os resultados, validar evidências e compreender o contexto de cada ocorrência. No seguro, isso pode contribuir tanto para a prevenção de fraudes quanto para a investigação de sinistros suspeitos e incidentes relacionados à segurança digital.
Governança e LGPD entram no centro da estratégia
A proteção de dados também depende de políticas de governança capazes de estabelecer responsabilidades claras sobre coleta, armazenamento, compartilhamento e utilização das informações. No Brasil, a conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) deve ser encarada não só como uma exigência regulatória, mas como parte da estratégia de proteção do negócio. Mapeamento de dados, controle de acessos, gestão de fornecedores, planos de resposta a incidentes e auditorias periódicas são práticas que podem reduzir vulnerabilidades e melhorar a capacidade de reação diante de uma ocorrência. Corretoras, prestadores de serviços, empresas de tecnologia, plataformas de análise de dados e parceiros comerciais podem participar de diferentes etapas da jornada do cliente, ampliando também a superfície de risco.
Segurança cibernética pode se transformar em diferencial competitivo
A crescente digitalização do mercado também modifica o papel do seguro diante dos riscos cibernéticos. Além de proteger financeiramente empresas e clientes contra determinados eventos, as seguradoras podem ampliar sua atuação oferecendo serviços de prevenção, monitoramento e resposta a incidentes. Essa transformação aproxima o seguro de uma indústria que participa ativamente da identificação e redução dos riscos e que pode conduzir o desenvolvimento de produtos mais personalizados, considerando características específicas de cada empresa, seu nível de exposição digital e sua estrutura de proteção.
Do incidente à inteligência: o novo desafio do seguro
O caso Unico x Serasa mostra que, na economia digital, a segurança dos dados não termina na criação de barreiras contra invasões. Ela também depende da capacidade de identificar, rastrear e interpretar cada evidência quando algo foge do padrão. Para o setor de seguros, essa realidade amplia o conceito de gestão de riscos: prevenir fraudes e ataques é tão importante quanto estar preparado para compreender tecnicamente o que aconteceu depois deles. Nesse contexto, a perícia digital pode ter valor estratégico para o seguro. Em uma ocorrência cibernética, por exemplo, saber quais sistemas foram afetados, quais dados foram efetivamente acessados e qual foi a origem do evento pode ser determinante para avaliar responsabilidades, dimensionar perdas e definir a extensão de uma cobertura. A qualidade das evidências, portanto, pode influenciar diretamente a tomada de decisão e a capacidade de resposta de seguradoras e segurados. Essa transformação também amplia o papel das seguradoras. Em vez de atuar somente depois que o prejuízo acontece, o setor pode utilizar inteligência artificial, análise de dados, monitoramento contínuo e ferramentas forenses para antecipar riscos e reduzir a frequência e a gravidade de possíveis eventos.


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