eVTOLs no Brasil: como os carros voadores impactam o seguro

Carros voadores se aproximam do mercado brasileiro
A Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer especializada em aeronaves elétricas, firmou um acordo com a FlyBIS Aviation Limited para fornecer até 12 eVTOLs, veículos de decolagem e pouso vertical. A expectativa é que destinos turísticos e centros de negócios do Sul, como Gramado (RS) e Balneário Camboriú (SC), estejam entre as regiões atendidas pelos futuros serviços de transporte aéreo. O contrato prevê a aquisição inicial de duas aeronaves, com possibilidade de compra de outras dez unidades. Segundo Johann Bordais, CEO da Eve, a combinação entre o potencial turístico e a atividade empresarial da região Sul favorece a adoção desse modelo de transporte. A parceria também sinaliza o avanço da mobilidade aérea urbana no país e coloca novos desafios para o setor de seguros, que precisará desenvolver soluções capazes de proteger as aeronaves, os passageiros e terceiros contra possíveis acidentes e danos.
Novo modelo de aeronave, novos desafios para a gestão de riscos
Além da aquisição das aeronaves, Eve e FlyBIS pretendem desenvolver um planejamento de rotas e integrar os serviços a outros meios de transporte. A ideia é estruturar uma plataforma de Mobilidade Aérea Avançada (AAM), visando a expansão para outros países latino-americanos. Como parte dessa estratégia, a FlyBIS prepara uma nova rodada de captação de recursos. Embora compartilhem algumas características com helicópteros e drones, os eVTOLs apresentam particularidades que exigem uma abordagem própria de proteção. Os veículos utilizam propulsão elétrica distribuída, conjuntos de baterias de alta densidade energética e sistemas avançados de navegação e controle de voo – o que implica em diferentes possibilidades de sinistros. Falhas nas baterias, incêndios, problemas nos sistemas de propulsão, interferências digitais e eventuais vulnerabilidades de softwares estão entre os pontos que precisam entrar na avaliação das seguradoras. A operação em áreas urbanas também acrescenta complexidade. Como essas aeronaves devem transportar passageiros em regiões com grande concentração de pessoas e construções, acidentes podem provocar consequências que ultrapassam os limites do próprio veículo, envolvendo imóveis, veículos terrestres e terceiros.
A falta de histórico dificulta a precificação dos seguros
A experiência acumulada com seguros aeronáuticos e de drones oferece referências importantes, mas não resolve todas as necessidades dessa nova modalidade de transporte. Um dos obstáculos para a entrada dos eVTOLs no mercado segurador é a escassez de dados sobre sua utilização comercial. Sem uma base consolidada de acidentes, falhas técnicas e custos de reparação, as companhias encontram dificuldades para estimar a frequência e a gravidade de possíveis sinistros. Esse cenário exige o desenvolvimento de modelos de avaliação que utilizem informações de engenharia, testes operacionais, simulações e dados fornecidos pelos fabricantes. A cooperação entre seguradoras e empresas de tecnologia também pode contribuir para identificar vulnerabilidades e estabelecer parâmetros mais consistentes de precificação. Outro ponto envolve a própria estrutura das apólices. As particularidades dos sistemas elétricos, dos softwares embarcados e da operação em baixa altitude podem exigir cláusulas específicas, limites de cobertura e critérios de responsabilidade diferentes daqueles utilizados na aviação tradicional.
Regulação e seguros precisam avançar em conjunto
A consolidação dos eVTOLs depende de um ambiente regulatório capaz de estabelecer requisitos de segurança, certificação, operação e responsabilização. No Brasil, a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) tem papel central nesse processo, especialmente na definição das condições para certificação das aeronaves e autorização dos serviços comerciais. Diante disso, as coberturas precisarão considerar diferentes exposições, incluindo danos à aeronave, responsabilidade civil de operadores, proteção dos passageiros e prejuízos causados a terceiros em solo, além de riscos cibernéticos e possíveis interrupções das operações. Esses aspectos precisam estar alinhados às características da mobilidade aérea urbana, considerando que o modelo de operação difere daquele encontrado na aviação convencional. Nesse processo, o mercado segurador pode contribuir com conhecimento técnico sobre transferência de riscos, definição de coberturas e avaliação de exposições. A participação de seguradoras, corretoras especializadas e entidades representativas e regulatórias do setor pode ajudar a aproximar as exigências legais das condições necessárias para viabilizar a proteção dessas operações, viabilizando o funcionamento das aeronaves, respeitando protocolos de segurança e prevenindo cenários de falha.
Carros voadores demandam novas respostas do mercado segurador
A possível entrada dos eVTOLs em rotas comerciais no Brasil faz com que o setor de seguros precise entender como falhas elétricas, problemas de navegação, ataques cibernéticos e acidentes em áreas urbanas podem afetar passageiros, operadores e terceiros. O acordo envolvendo a Eve e a FlyBIS coloca o Brasil no debate sobre a chegada de uma modalidade de transporte e a importância de estudar desafios técnicos e operacionais antes de alcançar uma utilização comercial mais ampla. A experiência com helicópteros e drones oferece alguns pontos de partida, mas será necessário desenvolver critérios próprios de avaliação, precificação e cobertura para essa tecnologia. O mercado de seguros encontra, portanto, uma oportunidade de participar desde as primeiras etapas dessa transformação. O desenvolvimento de coberturas específicas, a formação de profissionais especializados e a aproximação com fabricantes e reguladores podem preparar o setor para uma demanda que tende a ganhar espaço conforme a tecnologia avance. Seguradoras que estabelecerem parcerias com fabricantes e operadores podem ter melhores condições de compreender as exposições e estruturar soluções adequadas. O desafio não será simplesmente adaptar o seguro aeronáutico existente, mas acompanhar as particularidades de um transporte que combina propulsão elétrica, sistemas digitais e circulação em ambientes urbanos.



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