Mercado

O risco que o INSS já contabiliza e o mercado segurador ainda subestima

Saúde mental já é a segunda maior causa de afastamento no Brasil. O mercado segurador corre para entender o que isso significa para subscrição, prevenção e precificação.
O risco que o INSS já contabiliza e o mercado segurador ainda subestima

Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por transtornos mentais e comportamentais, um crescimento de 15,66% sobre o ano anterior, quando já haviam sido registrados 472.328 casos, de acordo com o Ministério da Previdência Social. O custo estimado ao INSS ultrapassa R$3,5 bilhões, concentrado sobretudo em diagnósticos de transtornos ansiosos e episódios depressivos. Com afastamentos com duração média de três meses e benefício médio de R$ 2.500, os números descrevem uma pressão financeira estrutural sobre o sistema previdenciário brasileiro e, por extensão, sobre toda cadeia que depende da continuidade produtiva do trabalhador, incluindo empregadores, planos de saúde e seguradoras de vida e acidentes pessoais.

Os afastamentos por transtornos mentais acumulam cinco anos consecutivos de alta, e o volume de 2025 representa 88% a mais do que todo o registrado em 2023. Esse ritmo de expansão não pode passar despercebidamente pelo mercado segurador porque o sinistro que se relaciona com a saúde mental, muitas vezes, antecede e acompanha internações, complicações clínicas secundárias, abandono de tratamento e perda de capacidade laboral permanente; variáveis essas que se conectam, simultaneamente, com carteiras de saúde, vida e previdência privada.

Assédio, burnout e sobrecarga estão regulamentados

Por décadas, o risco psicossocial no ambiente de trabalho ocupou uma zona de ambiguidade regulatória porque ele era reconhecido pela medicina ocupacional, mas ausente dos instrumentos formais de gestão. A atualização da NR-1, promovida pelo Ministério do Trabalho e Emprego em agosto de 2024, encerrou essa ambiguidade ao determinar que riscos psicossociais — como estresse, assédio e carga mental excessiva — sejam identificados e gerenciados pelos empregadores como parte das medidas de proteção à saúde dos trabalhadores. A mudança alcança empresas de todos os portes com trabalhadores em regime CLT, independentemente do setor. Com a norma em vigor, os empregadores precisam identificar esses riscos, elaborar planos de ação e monitorar continuamente sua eficácia. A fiscalização é planejada e feita por meio de denúncia, com prioridade para setores de alta incidência de adoecimento mental como teleatendimento, bancos e estabelecimentos de saúde.

Essa mudança tem consequência para o seguro corporativo já que ,quando o adoecimento mental de um trabalhador é reconhecido pelo INSS como doença ocupacional, o benefício concedido é o auxílio-doença acidentário, uma modalidade que gera estabilidade provisória de 12 meses após a alta e expõe a empresa a ações trabalhistas com nexo causal documentado. Com a NR-1 atualizada obrigando o registro formal dos riscos psicossociais, a ausência de medidas preventivas documentadas deixa o empregador em posição jurídica mais vulnerável. Seguros de responsabilidade civil, de gestão e de vida em grupo precisam considerar esse aumento de exposição ampliada como uma realidade vigente.

O que as resseguradoras já calculam

A mudança de postura das grandes resseguradoras é um bom indicador sobre para onde o risco está se movendo. A Munich Re aponta que condições de saúde mental são a causa número um de sinistros em seguros de invalidez em mercados maduros: na Alemanha, 22% de todas as perdas em seguros dessa categoria têm origem psiquiátrica. A dificuldade maior, segundo a resseguradora, está na avaliação: diferentemente de hipertensão ou diabetes, transtornos mentais não têm biomarcadores objetivos em exames de sangue ou imagem, o que torna os processos tradicionais de subscrição imprecisos e, em muitos casos, injustos para o segurado.

Já a Swiss Re evoluiu para além do diagnóstico do problema. Em parceria com a startup britânica Wysa, desenvolveu um aplicativo de suporte em saúde mental voltado especificamente para o ambiente de seguros, o Wysa Assure. A ideia do produto parte de uma premissa atuarial: segurados de alto risco que não têm acesso oportuno a suporte geram sinistros maiores e mais prolongados. A intervenção precoce, portanto, reduz custo de sinistro antes que o quadro escale para internação ou incapacidade permanente. Para as seguradoras europeias, quase metade já projeta alta superior a 15% nos custos por pessoa com saúde mental nos próximos três anos. Com esse nível de pressão sobre a sinistralidade, o suporte digital já é um excelente instrumento de gestão de carteira.

Wearables, sono e frequência cardíaca entram na subscrição

O modelo tradicional de subscrição em vida e saúde trabalha com uma fotografia de coleta de dados num momento específico usando exames, questionários e histórico clínico, por exemplo, e projeta risco a partir dessa imagem estática. O problema é que saúde mental é dinâmica por definição, o que significa que um segurado sem histórico psiquiátrico na contratação pode desenvolver burnout severo dois anos depois, sob pressão de trabalho ou eventos de vida. Para diminuir o impacto desses riscos, wearables e aplicativos de monitoramento contínuo oferecem uma alternativa que, dentro dessa metáfora, em vez de fotografar, filmam.

A WTW e a Klarity, empresa britânica de análise preditiva, trabalham desde 2025 para ajudar seguradoras de vida a integrar dados de dispositivos vestíveis nos processos de subscrição. A premissa técnica é que métricas como frequência cardíaca em repouso, variabilidade cardíaca, qualidade do sono e níveis de atividade física fornecem um perfil de risco mais completo do que colesterol ou IMC isolados  e começam a capturar sinais de estresse crônico e deterioração de bem-estar antes que qualquer diagnóstico clínico seja firmado. No campo da saúde mental especificamente, wearables que rastreiam padrões de recuperação e estresse crônico permitem identificar indivíduos em trajetória de risco elevado antes que o quadro se converta em sinistro (o que, do ponto de vista atuarial, é exatamente o intervalo em que a intervenção é mais barata e mais eficaz).

Telemedicina como linha de contenção de sinistros

No primeiro semestre de 2023, 34,5% das consultas de saúde mental realizadas nos Estados Unidos já eram virtuais e, em 2025, mais de 40% das seguradoras globais incluíram alguma forma de telessaúde em seus produtos. A velocidade de adoção leva a crer que o acesso rápido ao suporte reduz o intervalo entre sintoma e tratamento, e é exatamente nesse intervalo que casos leves se cronificam. A ANAMT registrou esse ponto com precisão ao observar que os dados de afastamento capturam apenas a ponta visível do problema; antes do afastamento formal, há um contingente expressivo de trabalhadores em sofrimento psíquico ativo, produzindo com perda de rendimento, com risco de erro e com deterioração progressiva do quadro.

Para o mercado brasileiro de planos de saúde, a telemedicina em saúde mental já produz indicativos que apontam direcionamentos importantes. A plataforma Psicologia Viva, integrada ao ecossistema digital da Bradesco Saúde, registrou quase 200 mil atendimentos ao longo de 2025, um crescimento de 172% sobre 2024, o que deixa claro que quando o acesso é desburocratizado, o volume de busca por suporte é expressivo. A questão que o setor ainda responde é se esse volume representa prevenção efetiva de sinistros futuros ou apenas atendimento de demanda reprimida.

O que a evidência científica diz e o que ainda falta

A adoção de apps e plataformas digitais de saúde mental pelos seguros avança mais rápido do que a evidência que a sustenta, o que não é necessariamente um problema, desde que as seguradoras entendam o que está comprovado e o que ainda está em teste. Uma revisão publicada no JMIR Mental Health em janeiro de 2025, consolidando dados de 14 revisões sistemáticas com buscas em PubMed, Web of Science, MEDLINE, Cochrane Library e PsycINFO, confirma que intervenções digitais baseadas em terapia cognitivo-comportamental, gestão de estresse e mindfulness produzem efeitos positivos mensuráveis para estresse, ansiedade, depressão e bem-estar psicológico em populações de trabalhadores. 

A implicação para as seguradoras envolve base científica suficiente para justificar a integração de suporte digital como componente de prevenção em carteiras corporativas, especialmente em setores com alta incidência de afastamentos. O que ainda falta é evidência que conecte, com metodologia estruturada, o uso continuado dessas plataformas à redução efetiva de sinistros ao longo do tempo, uma lacuna que o próprio artigo reconhece como prioritária para pesquisas futuras. Por tudo isso, é possível concluir que as seguradoras que investem nessa frente hoje estão construindo o próprio banco de dados que vai sustentar ou questionar a precificação baseada em comportamento de saúde mental no médio prazo. É, ainda, um campo em formação e, por isso, confundir adesão ao app com melhora clínica real é o erro mais fácil de cometer e o mais caro de descobrir depois; desse ponto cego nasce outro: adotar sem medir é repetir, no digital, o mesmo erro que o setor já cometeu com outros produtos de prevenção.

Postado em
22/6/2026
 na categoria
Mercado
Deixe sua opinião

Mais sobre a categoria

Mercado

VER TUDO