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Se a moradia é mais comum que o carro, por que o seguro residencial não ocupa o mesmo espaço que o seguro auto?

Enquanto o seguro auto foi incorporado ao repertório da proteção cotidiana, a moradia ainda permanece fora desse imaginário, apesar de concentrar patrimônio, rotina e responsabilidade civil. O que explica essa distância entre o risco vivido e a proteção contratada?
Se a moradia é mais comum que o carro, por que o seguro residencial não ocupa o mesmo espaço que o seguro auto?

Uma explosão causada por vazamento de gás destruiu ao menos duas casas no começo deste mês em Jardim Ângela, na Zona Sul de São Paulo, deixando 10 pessoas feridas. O Corpo de Bombeiros registrou colapso estrutural no imóvel onde ocorreu o vazamento e danos em residências vizinhas. A suspeita inicial indica que um botijão caiu com o registro aberto, liberando gás até a detonação.Incidentes como esse mostram o nível de vulnerabilidade doméstica à qual muitas famílias estão expostas. Quando um fato dessa natureza ocorre, é inevitável pensar no que poderia reduzir ao menos parte do impacto financeiro e estrutural deixado para trás e em como o seguro residencial poderia ajudar as famílias a atravessar as consequências materiais de uma ocorrência dessa dimensão.

Cobertura para além do dano imediato

Vazamentos de gás, curtos-circuitos, falhas estruturais e infiltrações não costumam ser percebidos como risco iminente por muitas famílias e, quando acontecem, a consequência envolve danos materiais e, muitas vezes, perda de moradia, interrupção da rotina, despesas médicas, responsabilidade por prejuízos a terceiros. Um seguro residencial cobre, em geral, explosão, incêndio e danos decorrentes. A depender da apólice, inclui reconstrução do imóvel, reposição de bens, despesas temporárias com hospedagem e responsabilidade civil por prejuízos causados a vizinhos. Num caso como o do Jardim Ângela, as casas atingidas ao redor também entram na equação e a recomposição patrimonial disponibilizada pelo seguro poderia reduzir o impacto financeiro e jurídico.

A lacuna cultural na percepção do risco doméstico

Mesmo com tantas vantagens, a contratação desse tipo de seguro ainda não é suficientemente ampla no Brasil (o seguro residencial ainda tem pouca adesão, se comparado ao de automóvel, por exemplo), e isso se deve, dentre vários fatores, a uma lacuna cultural. É fácil observar que o carro é vinculado a diversos riscos quase automaticamente; em relação à moradia, as pessoas raramente fazem essa associação. Essa ideia deveria causar alguma estranheza já que nem todo mundo tem um carro, mas todos vivem em algum tipo de imóvel e estão expostos a ocorrências semelhantes às que atingiram alguns moradores do Jardim Ângela.

Comunicação como fator de adesão

A adesão menor ao seguro residencial, quando comparada ao automóvel, sugere uma diferença na percepção e reconhecimento dos riscos no cotidiano, assimetria essa que convida a examinar suas causas para entender as consequências. Como parte desse exame é possível perceber que a resposta está na comunicação.

O seguro auto se é cercado por campanhas constantes, presença em concessionárias, bancos, corretores, comparadores digitais e publicidade reiterada ao ponto de ter se tornado parte do vocabulário cotidiano. Já o residencial, embora tecnicamente abrangente e com custo proporcionalmente menor, segue pouco explicado e pouco comunicado. Muitos proprietários desconhecem que a cobertura básica inclui incêndio e explosão; alguns inquilinos ignoram que podem contratar proteção para seus próprios bens, independentemente do imóvel pertencer a outra pessoa. 

Falar de risco com exemplos verificáveis

Por isso é importante que o setor relembre que informar exige clareza sobre situações concretas. Vazamento de gás, pane elétrica, queda de árvore e danos a vizinhos são ocorrências tangíveis, com efeitos financeiros mensuráveis. A comunicação pode explorar meios digitais, aplicativos bancários, redes sociais e marketplaces, mas também depende de orientação direta de corretores, síndicos e imobiliárias. O tema precisa aparecer onde a moradia é discutida: contratos de locação, financiamentos, condomínios e reformas. Esse é o núcleo da conversa. A partir dele, faz sentido ampliar o alcance para ambientes em que os riscos da casa já são enfrentados no dia a dia, ainda que o seguro não esteja explicitamente em pauta. 

Levar a informação aos pontos de contato do cotidiano

Para além dos espaços em que a moradia é formalmente tratada, a proteção do imóvel precisa circular onde o problema aparece primeiro, ou seja: nos serviços públicos, nas contas de consumo, nos programas habitacionais e nas reuniões de bairro. Nesses pontos de contato a informação pode ganhar concretude e se tornar parte da rotina. 

Como isso pode funcionar? Unidades de saúde, CRAS e subprefeituras lidam diretamente com as consequências de explosões, incêndios e falhas elétricas; nesses espaços, materiais simples podem relacionar prevenção e proteção financeira. Concessionárias de gás, energia e água já se comunicam com moradores por faturas e aplicativos, canais adequados para explicar coberturas ligadas a curto-circuito ou explosão. Programas habitacionais e processos de regularização fundiária alcançam famílias no momento em que da posse do imóvel, essa é uma etapa propícia para orientar sobre proteção patrimonial. Associações de bairro, mutirões comunitários e campanhas do Corpo de Bombeiros tratam de riscos concretos e permitem inserir o seguro como complemento à prevenção. Escolas públicas, EJA, aplicativos de serviços domésticos e correspondentes bancários em áreas periféricas também oferecem pontos de contato cotidianos, nos quais informação clara e exemplos objetivos podem ampliar o conhecimento sobre o seguro residencial.

Traduzir cobertura técnica em escolha cotidiana

O caso do Jardim Ângela é um desenho concreto  da distância entre risco real e percepção pública. A casa costuma ser o principal patrimônio de uma família e, ainda assim, a proteção desse patrimônio circula pouco no debate cotidiano. Ampliar essa conversa significa traduzir coberturas técnicas em situações reconhecíveis, com linguagem acessível e exemplos verificáveis. O seguro residencial existe, é bom e funciona; o que falta é ampliar a comunicação sobre ele, alertar sobre sua importância e transformá-lo em parte das escolhas práticas de quem vive o dia a dia da casa.

Postado em
12/2/2026
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