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Chuva no Rio reacende debate sobre seguro paramétrico para eventos climáticos

Modelo baseado em gatilhos técnicos dialoga com sistemas públicos de monitoramento climático e pode ser alternativa viável para lidar com custos imediatos associados a eventos de chuva intensa e alagamentos urbanos.
Chuva no Rio reacende debate sobre seguro paramétrico para eventos climáticos

A chuva intensa que atingiu a Região Metropolitana do Rio terça-feira (03) levou a capital ao estágio 2 de atenção após o registro de mais de 25 milímetros em apenas 30 minutos, segundo o Centro de Operações e Resiliência da Prefeitura. Em alguns bairros, os acumulados provocaram alagamentos e bolsões d’água. Alertas assim indicam risco de ocorrências de maior impacto, com possibilidade de agravamento conforme a evolução do tempo. 

Esse tipo de episódio ajuda a compreender por que eventos climáticos de curta duração, mas alta intensidade, seguem desafiando os mecanismos tradicionais de resposta do poder público. A chuva é medida, registrada e confirmada em tempo real por estações oficiais, mas os efeitos catastróficos dela exigem recursos imediatos, nem sempre disponíveis no orçamento corrente. É nesse ponto que o seguro paramétrico passa a entrar na discussão sobre gestão de riscos urbanos. 

Dados públicos como gatilho financeiro

Diferentemente das apólices indenizatórias clássicas, esse modelo se baseia em indicadores objetivos previamente definidos, como volume de chuva em determinado intervalo ou nível de um rio. Uma vez atingido o parâmetro acordado, o pagamento é acionado automaticamente, sem a etapa de vistoria e comprovação de dano físico.

Aplicações possíveis na gestão municipal

No caso de uma cidade como o Rio de Janeiro, que já opera sistemas de monitoramento meteorológico e hidrológico, o vínculo entre dados públicos e instrumentos financeiros é tecnicamente viável. Um contrato paramétrico poderia prever desembolso sempre que o acumulado ultrapassasse determinado limiar em regiões consideradas vulneráveis a alagamentos. Os recursos seriam liberados no mesmo dia, permitindo custear ações como remoção de detritos, reforço de equipes de campo ou apoio logístico em áreas afetadas.

Flexibilidade no uso dos recursos

Vale considerar ainda o uso dos valores pagos. Ao contrário dos seguros tradicionais, que restringem a indenização à recomposição de ativos específicos, a estrutura paramétrica admite alocação conforme a necessidade do momento. Isso inclui despesas operacionais, resposta social imediata e manutenção de serviços públicos, itens que costumam ficar fora ou mal cobertos em apólices convencionais.

Planejamento fiscal diante de riscos recorrentes

Entra nessa análise também o efeito direto sobre o planejamento fiscal. Se puder conhecer previamente as condições de acionamento e os valores envolvidos, a administração pública pode reduzir a imprevisibilidade típica dos eventos climáticos extremos. Em vez de recorrer a créditos emergenciais ou remanejar verbas de outras áreas, passa a contar com uma fonte de recursos já contratada e alinhada ao risco local.

Seguro como parte da política de prevenção

O modelo também pode ser estruturado de forma a estimular políticas de prevenção. Municípios que investem em drenagem, manutenção de rios urbanos e sistemas de alerta tendem a reduzir a frequência de acionamento ou negociar condições mais favoráveis. Assim, o seguro já poderia ser considerado no esqueleto formador da estratégia de gestão do risco dos municípios.

Um evento recorrente, uma decisão estrutural

O temporal ocorrido na última terça-feira é um evento costumeiro no verão e, mais ainda, se tratando de uma metrópole costeira sujeita a variações climáticas intensas como o Rio de Janeiro. Essas chuvas torrenciais já funcionam (há bastante tempo) como dados concretos de como riscos previsíveis, medidos por sistemas públicos, continuam gerando impactos recorrentes. A discussão sobre seguros paramétricos em situações desse tipo diz respeito a transformar informação já disponível em capacidade efetiva de resposta por parte do poder público.

Postado em
9/2/2026
 na categoria
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