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Muitos algoritmos, pouca regência: a falta de coordenação da IA trava processos e a eficiência do seguro embarcado

A promessa do embedded insurance esbarra na prática: sem coordenação entre IA, dados e processos, o modelo perde fluidez, eficiência e se distancia da realidade do mercado de seguros.
Muitos algoritmos, pouca regência: a falta de coordenação da IA trava processos e a eficiência do seguro embarcado

A necessidade de “orquestrar” a tecnologia

Uma construção civil pode até reunir dezenas de pedreiros experientes, mas sem um mestre de obras, um engenheiro e um arquiteto para coordenar tarefas, prazos e recursos, o resultado dificilmente será funcional. O mesmo vale para uma sinfonia musical, uma orquestra pode conter os melhores músicos e instrumentos, mas sem um maestro para conduzir o conjunto, o desempenho provavelmente ficará deficitário. No papel, tudo parece perfeito, mas, na prática, o som não se apresenta corretamente. Esse paralelo ajuda a entender um dos principais entraves do uso da inteligência artificial nos seguros – especialmente quando falamos de embedded insurance (ou seguro embutido). Há tecnologia, dados, APIs, automações e modelos de IA em abundância. O que muitas vezes falta é coordenação. Sem uma “regência” clara, a promessa de fluidez do seguro embutido e de outros projetos de “integração” perde eficiência e desacelera o fluxo operacional do setor.

Corretoras conectadas: ganhos operacionais em um mercado sob pressão

De acordo com uma matéria do Insurance Thought Leadership, com o aumento da pressão regulatória e de consumidores mais atentos e informados, o setor de seguros entra em 2026 enfrentando entraves operacionais causados, sobretudo, por sistemas desconectados. Dados inconsistentes dificultam decisões em tempo real, comprometem a orientação ao cliente e afetam a credibilidade das corretoras. Por isso, a matéria aponta o conceito de corretora conectada, que reconhece a relevância das ferramentas tecnológicas, mas entende que elas devem operar de forma conectada. A unificação de dados e a redução de setores operacionais permitem fluxos de trabalho mais enxutos, decisões mais precisas e uma visão clara do desempenho do negócio. Para os corretores, isso promove maior velocidade no acesso a informações das seguradoras; para a liderança, maior capacidade analítica; e para o consumidor, respostas coerentes ao longo da jornada. 

Seguro embarcado na prática: integração além da tecnologia

Embora ainda pouco difundido no Brasil, o formato de seguro embarcado é visto como uma aposta promissora. Sua proposta de integrar a proteção à jornada de consumo, de forma contextual e quase invisível para o usuário, dialoga diretamente com as novas expectativas dos consumidores por conveniência, agilidade e experiências simplificadas. Plataformas digitais, varejistas, fintechs e empresas de mobilidade já enxergam o embedded insurance como um instrumento para agregar valor aos seus serviços, fortalecer o relacionamento com o cliente e reduzir fricções no acesso ao seguro. Ao incorporar a oferta de proteção no momento exato da decisão de compra ou uso do serviço, essas empresas ampliam a percepção de utilidade do seguro, ao mesmo tempo em que criam novas oportunidades de gerar receita e promover fidelização.

Fluidez do seguro embutido choca com a carência de coordenação

No contexto operacional, a fluidez prometida pelo seguro embutido acaba esbarrando na falta de coordenação entre tecnologias, dados e sistemas envolvidos. Embora o modelo busque oferecer uma experiência simples, intuitiva, integrada e quase invisível para o cliente, a ausência de um direcionamento capaz de alinhar IA, processos e responsabilidades, trava a sua eficácia. Segundo Marcos Watanabe, cofundador da SUTHUB, as maiores barreiras ainda são a falta de integração entre sistemas, jornadas desconectadas do produto principal e o uso limitado de canais digitais, como o WhatsApp. Em entrevista ao Insurtalks, o executivo revelou que a empresa pretende superar esses entraves por meio de uma plataforma SaaS que acelera a distribuição digital de seguros, oferecendo soluções low code e zerocode. Enquanto a primeira facilita integrações flexíveis via APIs, a segunda permite ativar rapidamente canais de venda com produtos pré-formatados. O uso de IA complementa esse modelo, tanto na oferta automatizada quanto no apoio ao treinamento de equipes, mas sem uma base de dados coordenada, o operacional não consegue extrair a eficiência devida. 

É necessário pensar no modelo com estratégia 

O seguro embutido só gera valor quando é tratado de forma estratégica, e não como uma solução única aplicável a todos os contextos. Kyle Nakatsuji, CEO da Clearcover, defende que o embedded insurance pode funcionar para alguns perfis de clientes e produtos, mas falhar para outros. Nesse cenário, uma estratégia eficaz de embedded insurance deve considerar abordagens híbridas ou integradas à experiência de agência, oferecendo suporte humano quando necessário e construindo confiança ao longo da jornada. A preferência por rapidez e simplicidade conflitua com um olhar mais acurado, e ignorar esse equilíbrio limita o potencial do modelo. Para o CEO, o seguro embarcado é uma estratégia centrada no cliente, e apostar apenas em integração tecnológica e dados pode elevar ao “hype”, mas reduzir resultados concretos. Por isso, na visão dele, o sucesso depende do modelo, do tipo de produto, do perfil do consumidor e do nível de confiança exigido. 

O Open Insurance e a questão regulatória

O Open Insurance também ajuda a organizar fluxos de informação e a tornar a oferta de seguros mais acessível. Entretanto, conforme um artigo publicado no portal Fenacor, quando o seguro embutido avança sem um ecossistema bem estruturado, a transparência e conformidade regulatória podem não ficar esclarecidas corretamente. Modelos fechados tendem a concentrar informações, limitar a visibilidade do consumidor e enfraquecer princípios como transparência e consentimento. Para se consolidar de forma sustentável, o embedded insurance precisa crescer dentro de uma lógica regulada, em que a governança e a confiança acompanhem a inovação tecnológica.

Quando a tecnologia aprende a tocar em conjunto

O caso do seguro embarcado deixa claro que o principal desafio está na ausência de conexão. Sem ela, a multiplicidade de modelos, dados e automações gera ruído, não harmonia. Isso porque a IA até identifica riscos e oportunidades, mas sem um “centro de comando” que traduza essas informações em ações coerentes, a eficiência se perde. Fica evidente que a fluidez não se constrói apenas com automação, mas com estratégia, governança e integração real entre pessoas, processos e sistemas. Corretoras conectadas, plataformas bem estruturadas, modelos híbridos de distribuição e aderência aos princípios do Open Insurance apontam o caminho para um seguro mais próximo da vida cotidiana.

Por tudo isso, o sucesso do seguro embarcado dependerá da capacidade do setor de fazer os algoritmos tocarem em harmonia.

Postado em
13/1/2026
 na categoria
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