Insurtechs latino-americanas retomam força em 2026 e colocam IA no centro dos investimentos

Depois de um período marcado por maior seletividade dos investidores e redução do ritmo de aportes, o segmento de insurtechs tem apresentado sinais de expansão, desta vez, com maior preocupação com eficiência, escala e capacidade de resolver problemas concretos do setor de seguros. No primeiro semestre de 2026, as insurtechs latino-americanas captaram US$ 90 milhões em investimentos, enquanto o número de empresas ativas chegou a 576, crescimento de 14% em 12 meses e o maior nível desde 2023. Os dados fazem parte da nova edição do relatório Latam Insurtech Journey, elaborado pela Digital Insurance Latam e patrocinado pela Mapfre. Conforme a pesquisa, o Brasil permanece na liderança regional, à frente de México, Chile e Argentina. O país também registra novas rodadas de investimento e movimentos de fusões e aquisições que mostram como a tecnologia tem ocupado um lugar relevante dentro da cadeia de seguros.
América Latina volta a atrair capital
Com base no levantamento, o desempenho registrado até junho representa o terceiro maior volume de investimentos para um primeiro semestre desde a pandemia. Caso o ritmo seja mantido na segunda metade do ano, 2026 poderá terminar com cifras próximas às registradas em 2025, quando o setor movimentou cerca de US$ 199 milhões. No ano passado, a América Latina contava com 536 insurtechs ativas, alta de 7% no ano, e havia registrado US$199 milhões em financiamento, crescimento de 117% sobre 2024. O período foi considerado o terceiro melhor ano da história regional em investimentos, atrás apenas de 2022 e 2021. O mercado deixou para trás parte da lógica de crescimento acelerado baseada exclusivamente em venture capital e passou a privilegiar empresas capazes de demonstrar eficiência operacional, governança, monetização e integração com o mercado segurador. Essa transformação também aparece na taxa de mortalidade. No primeiro semestre de 2026, o índice caiu para 7%. Nos últimos 12 meses, surgiram 102 novas insurtechs e 35 deixaram de operar, resultado que reforça a percepção de um ecossistema mais dinâmico, porém mais seletivo.
Brasil mantém protagonismo regional e expande para o exterior
Se a América Latina apresenta sinais de recuperação, o Brasil continua sendo o principal polo desse processo. O país encerrou 2025 com 214 insurtechs e, no primeiro semestre de 2026, ampliou esse número para 217 empresas ativas. México aparece na sequência, com 150, seguido por Chile, com 112, e Argentina, com 110. O protagonismo brasileiro também é observado na atração de capital. Com base em dados da Digital Insurance Latam e da Mapfre, o Brasil concentrava aproximadamente 74% dos investimentos em insurtechs da região. Esse protagonismo está relacionado, entre outros fatores, à dimensão do mercado brasileiro de seguros e à complexidade de suas operações. A necessidade de aumentar a eficiência, automatizar processos e lidar com desafios como fraudes e gestão de grandes volumes de dados tem ampliado o espaço para soluções tecnológicas. Subscrição, regulação de sinistros, análise de riscos e prevenção a fraudes estão entre as atividades que passam por processos de digitalização e incorporação de inteligência artificial.
O amadurecimento desse mercado também começa a projetar empresas brasileiras para além das fronteiras nacionais. Um exemplo é a Brick, fundada em 2021, que desenvolve soluções de automação e inteligência artificial para apoiar decisões relacionadas à análise de riscos de seguradoras e empresas de mobilidade. A tendência mostra que as insurtechs brasileiras não atuam apenas na criação de novos produtos para o consumidor, mas também na construção da infraestrutura tecnológica que sustenta a evolução do mercado segurador.
IA deixa de ser promessa e passa a orientar investimentos
A inteligência artificial é um dos principais elementos dessa transformação. Dados citados pela Insurance Business a partir do Q1 2026 Global InsurTech Report, da Gallagher Re, apontam que 95,2% do financiamento global de insurtechs no primeiro trimestre de 2026 foi destinado a empresas focadas em IA. O cenário representa uma mudança importante em relação ao período em que a prioridade dos investidores estava concentrada na migração de tecnologias para a nuvem. Na América Latina, a tendência começa a ganhar contornos próprios. O relatório Latam Insurtech Journey identificou 18 insurtechs focadas em IA agêntica, segmento praticamente inexistente dois anos antes. As aplicações abrangem áreas como sinistros, detecção de fraudes, subscrição e atendimento ao cliente. Essa é um mudança é relevante porque a IA agêntica não se limita a analisar informações ou gerar respostas, ela pode assumir etapas de processos, conectar sistemas e executar tarefas de forma mais autônoma, criando oportunidades para transformar operações tradicionalmente marcadas por burocracia. Para as seguradoras, isso pode significar ciclos mais rápidos de cotação, análise de risco e regulação de sinistros. Para corretores, pode representar automação de tarefas administrativas e mais tempo dedicado ao relacionamento com clientes.
Life & Care concentra a maior parcela dos investimentos
Com base em uma matéria e estudos divulgados no portal Democrata, o setor reúne empresas de distribuição digital, brokers especializados, telemática e soluções voltadas ao transporte. Já o segmento Life & Care, que reúne soluções relacionadas à vida, saúde, bem-estar e envelhecimento, conta com 151 empresas, ou 26% do ecossistema regional. O destaque está, principalmente, na capacidade de atrair capital: 76% dos US$90 milhões investidos no primeiro semestre de 2026 foram destinados a empresas de Life & Care. A concentração indica que os investidores enxergam oportunidades em mercados nos quais envelhecimento populacional, aumento da demanda por serviços de saúde, prevenção e personalização podem gerar novos produtos e modelos de proteção. Essa lógica também explica o crescimento das soluções B2B e B2B2C, dos modelos MGA e das plataformas voltadas a corretores e seguradoras. Em vez de substituir necessariamente os atores tradicionais, muitas insurtechs buscam ampliar sua capacidade operacional e tecnológica.
Visão de líderes no Brasil sobre a nova geração de insurtechs
As startups estão priorizando modelos de gestão mais integrados, interoperabilidade entre sistemas e soluções capazes de gerar ganhos concretos de produtividade. De acordo com uma matéria do Valor Econômico, a mudança ocorre em um ambiente de capital mais seletivo, no qual investidores avaliam não apenas o potencial de crescimento, mas também a capacidade de execução e geração de receita. Para Gesner de Oliveira, pesquisador do Instituto de Inovação em Seguros e Resseguros da Fundação Getulio Vargas (FGV-IISR), isso indica uma mudança na forma de desenvolvimento das startups. Em vez de buscar crescimento acelerado sustentado por capital de risco, as empresas precisam apresentar eficiência operacional, governança consistente e modelos de monetização bem estruturados. O especialista também destaca que, após a primeira onda de transformação digital, algumas características passaram a diferenciar as insurtechs que conseguiram se consolidar. Entre elas estão a especialização em riscos e a disciplina financeira.
Essa perspectiva é compartilhada por José Prado, CEO do Insurtech Brasil, que avalia que a evolução das startups contribui para ampliar as possibilidades do mercado segurador. Para o executivo, novas tecnologias podem simplificar operações, reduzir barreiras e contribuir para a criação de produtos mais acessíveis a diferentes públicos. Nesse processo, o ambiente regulatório também exerce papel importante. Prado destaca a atuação da Susep na criação de condições favoráveis à inovação e na discussão de mudanças regulatórias. A combinação entre avanço tecnológico e evolução regulatória pode, assim, abrir espaço para novos modelos de negócio sem perder de vista a segurança e a sustentabilidade do mercado.
A nova corrida das insurtechs não é por velocidade, mas por relevância
O desempenho observado em 2026 até o momento mostra que o mercado latino-americano de insurtechs tem apostado em dinamismo, mas a principal mudança está na qualidade da inovação que passa a atrair capital. As insurtechs deixaram de ser vistas apenas como concorrentes das seguradoras tradicionais. Em muitos casos, elas podem atuar como infraestrutura tecnológica do próprio mercado segurador, fornecendo ferramentas que podem ser incorporadas por seguradoras, corretoras, bancos, plataformas digitais e outros canais de distribuição. A tendência sugere que seguros estão se tornando uma vertical estratégica para empresas de tecnologia e serviços financeiros que já possuem grandes bases de clientes.
No Brasil, a combinação entre escala de mercado, investimentos e demanda por eficiência mantém o país entre os mercados que mais concentram essa expansão. Para as seguradoras e insurtechs, portanto, o diferencial estará em quem conseguir transformar tecnologia em eficiência, dados em decisões e inovação em proteção efetivamente acessível ao consumidor. A maturidade do ecossistema pode fazer de 2026 mais do que um ano de recuperação dos investimentos, em que as insurtechs podem solidificar a evolução do mercado de seguros latino-americano e brasileiro.


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