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Qualidade na formação médica: impacto das sanções do Enamed e lições para as seguradoras de saúde

Os resultados do Enamed reacendem o debate sobre a qualidade da formação médica no Brasil e seus impactos diretos na sinistralidade, na sustentabilidade financeira e na confiança dos planos de saúde.
Qualidade na formação médica: impacto das sanções do Enamed e lições para as seguradoras de saúde

Enamed e o alerta sobre a formação médica no Brasil

A divulgação dos resultados do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enamed) reacendeu o debate sobre a qualidade da formação médica no Brasil ao revelar que cerca de 30% dos cursos de Medicina tiveram desempenho insatisfatório. Ao todo, mais de 100 graduações receberam notas baixas, e 99 delas deverão sofrer sanções do Ministério da Educação, com redução ou suspensão de vagas, conforme o conceito obtido. Para a saúde suplementar, os dados reforçam a relação direta entre a qualidade do ensino médico, a segurança do atendimento e a sustentabilidade dos planos de saúde. A confiança dos beneficiários vai além das coberturas oferecidas e depende da excelência clínica dos profissionais da rede credenciada, tornando a qualificação médica um fator estratégico para operadoras e seguradoras.

Formação deficiente e aumento da exposição a riscos

Aplicado anualmente pelo Inep, o Enamed é a versão do Enade voltada especificamente à Medicina e tem como objetivo avaliar a preparação técnica dos futuros médicos. Ao evidenciar o baixo desempenho de diversos cursos, o exame expõe falhas estruturais no ensino médico que merecem atenção imediata. Quando a formação é insuficiente, o impacto vai além do ambiente acadêmico. Profissionais menos preparados tendem a enfrentar dificuldades na condução de casos complexos, aumentando a probabilidade de erros assistenciais, retrabalho, judicialização e conflitos com pacientes. Para o mercado de seguros e planos de saúde, esse contexto amplia significativamente a exposição a riscos operacionais, financeiros e reputacionais, exigindo das operadoras uma atuação mais criteriosa na gestão da rede credenciada e na prevenção de eventos adversos. No âmbito dos seguros e planos de saúde, esse cenário se traduz em maior exposição a riscos operacionais, financeiros e reputacionais — um desafio que exige atenção redobrada das operadoras.

Impactos diretos para operadoras e seguradoras de saúde

Dados da ANS mostram que falhas médicas e atendimentos inadequados estão entre os principais fatores de reclamações e conflitos envolvendo planos de saúde, gerando impacto direto nos custos e na reputação das operadoras. Em um mercado de saúde suplementar em franca expansão, que já ultrapassa 51,5 milhões de beneficiários, cresce também a necessidade por profissionais cada vez mais qualificados e preparados para lidar com a complexidade regulatória, jurídica e econômica do setor. Nesse contexto, cada evento adverso afeta não apenas o equilíbrio financeiro, mas também a confiança e a percepção de valor por parte do consumidor. Por isso, a qualidade da formação técnica, tanto médica quanto dos profissionais que atuam na gestão do setor, passa a ser um elemento estratégico para seguradoras e operadoras, influenciando diretamente indicadores como sinistralidade, fidelização e satisfação dos clientes. A Escola de Negócios e Seguros (ENS) tem disponibilizado cursos de extensão para capacitar ainda mais os profissionais, considerando esse contexto, como o “Saúde Suplementar: Aspectos Econômicos, Jurídicos e Regulatórios”, voltado à atualização profissional. A formação explora os principais desafios e tendências da área, capacitando os participantes para atuar com mais segurança e eficiência em um mercado altamente regulado

Expansão do número de médicos e pressão econômica sobre o sistema de saúde

Segundo o Censo da Demografia Médica de 2025, o Brasil já soma cerca de 635 mil médicos registrados, com projeção de alcançar 1,15 milhão de profissionais até 2035 — um crescimento acelerado em pouco mais de uma década. Embora esse aumento amplie a oferta de profissionais, ele também traz desafios econômicos relevantes para o setor da saúde. O aumento expressivo da quantidade de médicos tende a intensificar a concorrência no mercado de trabalho, pressionando a remuneração da mão de obra médica, especialmente em grandes centros urbanos e em especialidades mais saturadas. Além disso, o Ministério da Saúde destaca que o principal desafio permanece sendo garantir acesso ao atendimento especializado em tempo adequado. O represamento de cirurgias e exames durante a pandemia agravou a pressão sobre o sistema público, evidenciando a maior capacidade atual da rede privada de absorver parte dessa demanda. Assim, os dados da demografia médica são relevantes também para o planejamento da saúde suplementar, revelando a necessidade de gestão eficiente, integração entre os sistemas público e privado e modelos sustentáveis que conciliem acesso, qualidade do atendimento e valorização profissional.

Seleção da rede credenciada e educação continuada

O setor de saúde enfrenta desafios crescentes na atração e retenção de talentos, em um cenário marcado pela escassez de profissionais, alta rotatividade e rápidas transformações tecnológicas. Conforme um artigo do blog Abler, A complexidade do cuidado, a exigência por atualização constante e a responsabilidade direta sobre a vida dos pacientes tornam os processos de recrutamento mais criteriosos e estratégicos, especialmente diante do envelhecimento da população, do avanço das doenças crônicas e da digitalização dos serviços, como a telemedicina. Para seguradoras e operadoras, esse contexto reforça a importância de critérios rigorosos na seleção da rede credenciada, priorizando profissionais qualificados, com formação consistente, certificações atualizadas e alinhamento às boas práticas assistenciais. Investir em marca empregadora, processos seletivos eficientes e programas de educação continuada passa a ser uma estratégia essencial de mitigação de riscos, contribuindo para a segurança clínica, a qualidade do atendimento e a sustentabilidade do sistema de saúde suplementar.

Parcerias estratégicas e inovação como aliadas

Algumas grandes operadoras já adotam estratégias mais integradas, investindo em parcerias com universidades, centros de pesquisa e hubs de inovação em saúde. Essas iniciativas fortalecem a formação prática, estimulam a adoção de protocolos baseados em evidências e contribuem para a redução de eventos adversos, com impacto positivo direto nos custos assistenciais. O uso de tecnologias digitais e inteligência artificial também ganha destaque, permitindo a análise de dados clínicos, identificação precoce de riscos e direcionamento dos pacientes para profissionais com melhor desempenho assistencial.

Quando a formação médica vira estratégia de risco e valor

Os resultados do Enamed deixam claro que a qualidade da formação médica não é apenas uma pauta educacional, mas um fator estrutural para o equilíbrio da saúde no país. Em um cenário de expansão do número de profissionais, pressão sobre custos, aumento da judicialização e consumidores atentos à experiência assistencial, a excelência técnica é algo indispensável nos serviços de saúde. Investir em seleção criteriosa da rede credenciada, educação continuada, parcerias institucionais e inovação tecnológica significa reduzir riscos, fortalecer a confiança do beneficiário e garantir previsibilidade financeira. O Enamed, nesse contexto, funciona como um termômetro que antecipa tendências e alerta para escolhas que impactam diretamente a sinistralidade e a reputação do setor. Para as seguradoras de saúde, a lição é de cuidado e atenção à formação médica, pois isso também é cuidar da própria sustentabilidade do negócio, transformando qualidade assistencial em valor de longo prazo, em prol do máximo zelo com os segurados.

Postado em
21/1/2026
 na categoria
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