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Brasil lidera adoção da IA no mundo corporativo e revela maior apreensão dos trabalhadores: como isso reverbera no mercado segurador?

Brasil está no topo de países que usam IA no ambiente de trabalho. Entenda os impactos dessa realidade no mercado de seguros e os reflexos para os corretores.
Brasil lidera adoção da IA no mundo corporativo e revela maior apreensão dos trabalhadores: como isso reverbera no mercado segurador?

Uso crescente da IA coloca Brasil em destaque global

O Brasil vem se destacando globalmente no uso da inteligência artificial no ambiente corporativo. Segundo o relatório Work Trend Index, da Microsoft, o país possui mais profissionais especializados em IA do que mercados como Estados Unidos, Japão e Índia. Cerca de 27% dos usuários brasileiros da tecnologia já participam da automação de operações, desenvolvimento de soluções inteligentes e reformulação de processos corporativos – índice acima da média internacional, de 16%. O levantamento também mostra que a transformação digital ocorre em ritmo acelerado no país: 72% dos trabalhadores afirmam ter incorporado novas funções à rotina profissional graças ao uso da inteligência artificial, enquanto a média global é de 58%. Apesar do avanço, a adaptação tecnológica também vem acompanhada de preocupação. Quase 80% dos trabalhadores brasileiros dizem temer ficar para trás caso não aprendam rapidamente a utilizar ferramentas de inteligência artificial, o que também supera a média mundial, de 65%. No mercado de seguros, essa realidade já faz parte da dinâmica operacional das empresas e, com isso, as seguradoras precisam acompanhar de perto os efeitos da IA para equilibrar eficiência operacional, adaptação profissional e experiência do consumidor. 

Inteligência artificial redefine operações no mercado segurador

A inteligência artificial já faz parte da estrutura operacional do mercado segurador brasileiro e tem afetado a forma como seguradoras, corretoras e insurtechs conduzem seus processos. A tecnologia tem sido fortemente aplicada em áreas como análise de risco, precificação, subscrição automatizada, combate a fraudes e atendimento ao consumidor, reduzido o tempo de resposta e simplificado jornadas digitais, tornando os serviços mais rápidos e personalizados. Segundo a pesquisa “Inteligência Artificial e o Setor de Seguros no Brasil”, realizada pela CNseg, aproximadamente 80% das empresas seguradoras já implementaram soluções de inteligência artificial em suas operações. O crescimento se deu principalmente por conta da IA generativa, que acelerou a automação de tarefas e a revisão de processos internos. O estudo também indicou que 84% das empresas observaram crescimento de receita associado ao uso da inteligência artificial, ainda que em percentuais inferiores a 1%. Apesar dos ganhos em produtividade e eficiência operacional, o avanço da automação também intensifica discussões sobre requalificação profissional, transparência algorítmica e preservação da confiança do consumidor. “O desafio agora é evoluir do ganho operacional para uma transformação estruturada, com foco no consumidor, segurança regulatória e responsabilidade no uso da tecnologia, garantindo que a IA amplie a eficiência do setor sem comprometer a confiança que sustenta o mercado segurador”, pontuou o diretor técnico de Estudos e Relações Regulatórias da CNseg, Alexandre Leal.

Medo da substituição tecnológica cresce entre trabalhadores

A alta adesão da tecnologia no ambiente corporativo também tem provocado preocupação entre profissionais que enxergam a transformação digital como um possível risco para funções tradicionalmente exercidas por pessoas. Uma análise de mais de 100 mil interações no Microsoft 365 Copilot mostrou que 49% das tarefas executadas com suporte de inteligência artificial envolvem atividades cognitivas, como interpretação de dados, solução de problemas e processos criativos – competências que continuam diretamente relacionadas à capacidade humana de supervisionar, contextualizar e administrar o uso da própria tecnologia. A análise também revelou que, apesar da pressão pela adoção acelerada da IA nas empresas, muitos profissionais ainda temem transformar completamente suas rotinas de trabalho. Globalmente, 45% consideram mais seguro manter processos tradicionais do que automatizá-los totalmente com a ferramenta digital. Corretores, analistas e profissionais de atendimento convivem com uma nova dinâmica em que tecnologia e interação humana precisam coexistir. Assistentes virtuais e sistemas automatizados podem ajudar a aumentar eficiência e escala operacional, enquanto equipes especializadas permanecem responsáveis pelos atendimentos complexos e personalizados. A manutenção desse equilíbrio é fundamental para preservar a confiança do consumidor e garantir que os profissionais continuem exercendo uma função técnica e relevante.

Corretores ganham novo papel estratégico

Longe de eliminar a importância do corretor, a IA tende a redefinir sua atuação. Com plataformas digitais fornecendo dados mais precisos e automatizando tarefas operacionais, os profissionais passam a concentrar esforços em atividades consultivas e estratégicas. O relacionamento com o cliente, a orientação personalizada e a educação sobre coberturas e riscos tornam-se diferenciais ainda mais importantes em um mundo cada vez mais digitalizado. Ferramentas de CRM integradas com IA, análise preditiva e plataformas automatizadas auxiliam os corretores a identificarem oportunidades comerciais, personalização de ofertas e melhoria da experiência do consumidor.

Avanço da IA impulsiona novas exigências regulatórias no setor

A rápida incorporação da inteligência artificial no mercado de seguros vem ampliando a atenção sobre critérios de segurança, fiscalização e uso ético da tecnologia. Com a crescente presença de sistemas automatizados em processos como avaliação de risco, cálculo de preços e validação de contratos, aumenta também a preocupação com possíveis distorções algorítmicas, uso inadequado de dados e falta de transparência nas decisões automatizadas. Diante desse cenário, discussões sobre regulamentação ganham espaço tanto no Brasil quanto no exterior. Entidades ligadas ao setor segurador e à supervisão financeira defendem estruturas regulatórias capazes de acompanhar o avanço tecnológico sem comprometer a proteção do consumidor, buscando equilibrar inovação, confiabilidade operacional e responsabilidade digital.

Qualificação humana é determinante na era da inteligência artificial

Mesmo com o uso acelerado das ferramentas tecnológicas, o fator humano seguirá sendo indispensável para sustentar a transformação digital no setor de seguros. O receio demonstrado por muitos profissionais diante da automação reforça a importância de investimentos contínuos em capacitação, requalificação e adaptação cultural dentro das empresas. As organizações devem se preparar para o novo cenário, unindo recursos tecnológicos com desenvolvimento humano e valorizando competências profissionais necessárias que complementem a IA. Além disso, a transparência deve fazer parte dessa mudança. Explicar de forma clara como a inteligência artificial é aplicada nos serviços, quais benefícios ela oferece e como os dados são utilizados pode contribuir para reduzir resistências, aumentar a confiança do consumidor e fortalecer a aceitação das soluções digitais no mercado segurador.

Entre inovação e confiança, setor busca novo equilíbrio

A tecnologia otimiza operações, amplia eficiência, automatiza processos e cria oportunidades inéditas para seguradoras, corretoras e consumidores. No entanto, os dados também revelam um movimento paralelo: quanto maior a presença da IA no ambiente corporativo, maior também é a preocupação dos profissionais diante das mudanças provocadas por essa transformação. Por isso, o diferencial do setor não é utilizar a IA por si só, mas equilibrar inovação tecnológica, qualificação humana e confiança. Os corretores passam a atuar como agentes de relacionamento, interpretação de dados e orientação consultiva em um ambiente cada vez mais digitalizado. Junto a isso, discussões sobre ética, transparência e responsabilidade regulatória têm ganhado ainda mais destaque, especialmente em um segmento que lida diretamente com proteção, previsibilidade e segurança financeira. Tendo em vista a liderança do Brasil na utilização da IA, o desafio para as empresas é construir um ecossistema em que ambos (máquinas e humanos) atuem de forma complementar. A inteligência artificial não vai substituir a expertise humana, mas é possível que modifique competências, o que afeta as funções tradicionais e exige novas formas de adaptação. Portanto, o futuro do setor dependerá da capacidade de equilibrar automação, ética e confiança em um período marcado por dados e tecnologia.

Postado em
18/5/2026
 na categoria
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