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Zeladores de robô: o novo papel humano no mercado de carros autônomos e seus impactos no setor de seguros

Como a supervisão humana de veículos autônomos ressignifica o gerenciamento de riscos e abre oportunidades para coberturas especializadas no mercado segurador.
Zeladores de robô: o novo papel humano no mercado de carros autônomos e seus impactos no setor de seguros

Quando a automação ainda precisa de pessoas

O avanço dos veículos autônomos está mudando a mobilidade urbana e, ao mesmo tempo, criando funções profissionais inesperadas. Os chamados “zeladores de robô” ou “babás de robô” são pessoas responsáveis por monitorar, acompanhar e intervir quando sistemas automatizados enfrentam situações que não conseguem resolver sozinhos. Como tem sido discutido nos últimos tempos após diversos saltos tecnológicos, apesar do alto nível de tecnologia, a presença humana ainda é necessária para garantir a segurança e o funcionamento das operações. Diogo Cortiz do podcast Deu Tilt do UOL destacou que a promessa de substituir tarefas simples por atividades mais sofisticadas nem sempre se confirma na prática. Em muitos casos, novas funções surgem justamente para compensar as limitações das máquinas. Recentemente, por exemplo, a Waymo, controlada pela Alphabet, passou a pagar pessoas para se deslocarem até o local onde o veículo está parado apenas para fechar a porta. Em um caso que ganhou grande repercussão, um trabalhador recebeu cerca de R$ 127 para realizar isso, já que o carro não pode seguir viagem com a porta mal fechada. Situações como essa mostram que, mesmo em sistemas altamente automatizados, o fator humano continua sendo indispensável e isso também cria novos desafios para a avaliação de riscos no setor de seguros. 

Mobilidade autônoma e estratégia supervisionada de operação

Os veículos autônomos combinam inteligência artificial, sensores, câmeras, radares e conectividade para interpretar o ambiente e tomar decisões em tempo real. A promessa é reduzir drasticamente os acidentes relacionados ao erro humano e tornar o transporte mais eficiente. Entretanto, a operação totalmente independente ainda enfrenta desafios técnicos, legais e regulatórios. Por isso, algumas empresas podem optar por uma vertente híbrida, na qual sistemas automatizados são supervisionados por operadores humanos que podem intervir remotamente ou presencialmente. Esses profissionais, os “zeladores de robô” são uma medida a mais de segurança para lidar com situações fora do padrão, em caso de falhas dos algoritmos. Esse formato altera a lógica tradicional da mobilidade e, consequentemente, os parâmetros de avaliação de risco no mercado segurador.

Novas variáveis na precificação do risco

Com a introdução de sistemas autônomos no segmento automotivo, a análise de risco deixa de considerar apenas fatores clássicos, como comportamento do motorista ou condições do veículo. Agora entram em cena novos elementos, entre eles:

  • desempenho e confiabilidade dos algoritmos de condução
  • qualidade dos sensores e sistemas embarcados
  • estabilidade da comunicação entre veículo e centro de controle
  • eficiência da supervisão humana

O crescimento da popularidade dos veículos autônomos ainda gera incertezas para o setor de seguros de automóveis, mas analistas do Bank of America avaliam que essa transformação pode se tornar uma grande oportunidade para o mercado. Isso porque, com carros sem motorista, a responsabilidade em caso de acidentes tende a deixar de ser individual e passar para empresas, fabricantes e operadores dos sistemas. O tema ganhou ainda mais atenção à medida que iniciativas como os táxis autônomos da Tesla e da Waymo, controlada pela Alphabet, começam a se tornar mais frequentes. Segundo estimativas do Goldman Sachs, a expansão dessa tecnologia pode levar a uma reconfiguração do mercado de seguros automotivos dos Estados Unidos, avaliado em cerca de US$ 400 bilhões, já que a redução de acidentes por erro humano tende a mudar a forma de precificação e exigir coberturas adaptadas à interação entre software, hardware e intervenção humana.

O dilema da responsabilidade entre software e operador

Quando um sistema automatizado toma uma decisão equivocada, surge um impasse jurídico e operacional: a responsabilidade recai sobre o fabricante do software, o proprietário do veículo ou o operador humano responsável pela supervisão do sistema? Esse debate mobiliza especialistas em mobilidade, tecnologia e direito securitário, sobretudo porque a condução automatizada envolve uma complexa interação entre algoritmos, sensores e monitoramento humano. Em situações em que um operador remoto não consegue intervir a tempo ou comete um erro de avaliação, surgem tipos de sinistros que escapam ao escopo tradicional do seguro automotivo. Diante desse novo cenário, é preciso considerar coberturas específicas voltadas para riscos associados à mobilidade autônoma, incluindo falhas de software, vulnerabilidades cibernéticas que afetam sistemas de condução, responsabilidade de operadores remotos e eventuais erros na supervisão humana. 

Parcerias, qualificação e dados no centro da nova estratégia

Com o avanço dos veículos autônomos, seguradoras, montadoras e empresas de tecnologia podem intensificar parcerias para criar soluções de proteção mais adequadas a esse novo cenário, adicionando cláusulas específicas relacionadas à interação entre operadores humanos e sistemas automatizados, além de depender do acesso a dados operacionais em tempo real. Nesse contexto, a atuação dos operadores que supervisionam esses sistemas também ganha relevância. Como assumem responsabilidades técnicas e jurídicas importantes, a qualificação profissional, certificações e protocolos de operação passam a influenciar diretamente a avaliação de risco, a definição de prêmios e até a análise de sinistros. Além disso, o monitoramento contínuo do desempenho dos veículos, das intervenções humanas e dos padrões de risco fazem com que as seguradoras aprimorem a precificação, reforçando a prevenção de sinistros. Um conjunto de informações inteligentes pode ser um diferencial quando o assunto é inovação e tecnologia no âmbito automotivo.

Algoritmos, pessoas e o novo equilíbrio do risco

Nos veículos autônomos, a segurança não depende apenas de sensores e algoritmos, mas também da capacidade de supervisão, decisão e intervenção de pessoas que atuam nos bastidores da tecnologia. A presença humana na operação dos sistemas automatizados traz mais segurança e responsabilidade –  o que demanda novos modelos de precificação e abre espaço para coberturas mais específicas, a fim de acompanhar a complexidade da mobilidade inteligente. Ao mesmo tempo, parcerias com empresas de tecnologia, uso intensivo de dados e a qualificação desses novos profissionais tendem a redefinir a forma como o risco é analisado e prevenido. Nesse cenário, as seguradoras precisam interpretar essa transformação com rapidez e sensibilidade. Os “zeladores de robô” simbolizam um estágio mais realista da inovação, em que humanos e máquinas não competem, mas dividem funções e habilidades – e é justamente nessa interdependência que o mercado de seguros pode encontrar um novo caminho para evoluir.

Postado em
24/3/2026
 na categoria
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