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O boom das bets e o que isso significa para o seguro de vida e o seguro prestamista

Dados sobre dependência em jogos online ampliam o debate sobre como seguro de vida e prestamista podem responder à fragilidade financeira sem transformar vulnerabilidade em barreira de acesso.
O boom das bets e o que isso significa para o seguro de vida e o seguro prestamista

O crescimento exponencial das apostas online no Brasil está mudando o panorama de riscos financeiros e criando novos desafios para o mercado de seguros. Segundo estudo da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), 35% dos paulistanos fazem apostas em plataformas online com o plano de aumentar a renda doméstica de maneira rápida, dez pontos percentuais entre 2024 e 2026.Por outro lado, caiu a proporção de pessoas que dizem apostar para investir, de 9%, em 2024, para 5%, em 2026. Quase 1 em cada 10 entrevistados (7%) diz estar viciado nos jogos.  Esse fenômeno representa um duplo impacto para o setor segurador brasileiro. Por um lado, o aumento do endividamento e da instabilidade financeira dos consumidores pode elevar a sinistralidade em produtos como seguro de vida e seguro prestamista. Por outro, surgem oportunidades para desenvolvimento de produtos inovadores voltados à proteção contra riscos financeiros emergentes.

Apostas, renda curta e saúde pública

O impacto das apostas online na saúde financeira dos brasileiros já é considerado um problema de saúde pública. Dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), referentes a 2023, indicam maior vulnerabilidade entre pessoas de menor renda e adolescentes: entre os menores de 18 anos que apostaram no último ano, 55% apresentaram comportamento de dependência; entre adultos, o índice foi de 39%. No recorte econômico, 53% das pessoas com renda de até um salário mínimo jogam de forma problemática. A preocupação aumenta quando esse comportamento compromete recursos destinados a despesas essenciais, incluindo seguros. Para as seguradoras, esse quadro exige um olhar mais atento sobre inadimplência, capacidade de pagamento e exposição financeira dos segurados, com possíveis reflexos nos modelos de subscrição e gestão de riscos.

O desafio de avaliar sem estigmatizar

A partir desse quadro, o debate para o mercado segurador envolve a forma como comportamentos financeiros de risco podem interferir na permanência das apólices e na previsibilidade das carteiras. Ferramentas de análise de dados e inteligência artificial podem apoiar a identificação de padrões associados ao comprometimento de renda, ao endividamento recorrente e à instabilidade no pagamento de apólices, desde que usadas com critérios claros de privacidade, transparência e não discriminação.

Diante disso, é possível que perguntas relacionadas a apostas sejam consideradas em processos de avaliação de risco, sobretudo em produtos nos quais renda e capacidade de pagamento têm peso relevante. A inclusão desse tipo de informação, no entanto, precisaria ser conduzida com cautela, porque postar eventualmente não equivale a apresentar risco agravado; a questão está em compreender quando o comportamento indica dependência, perda de controle financeiro ou maior probabilidade de interrupção da proteção contratada.

Novos produtos precisam partir do problema social

Também pode haver espaço para produtos voltados à proteção financeira de famílias expostas a esse tipo de vulnerabilidade. Seguros de renda, microsseguros adaptados a diferentes perfis de renda e soluções ligadas à manutenção de coberturas em momentos de desequilíbrio financeiro aparecem como possibilidades. O desafio está em criar respostas que não tratem a aposta como nicho comercial, mas como um fator de risco social e econômico que pode afetar a capacidade de proteção de milhões de brasileiros.

Seguro de vida e a proteção da família exposta

Essa cautela é especialmente importante no seguro de vida, porque a aposta online não afeta apenas o orçamento individual de quem joga, afeta a família inteira que fica mais exposta a imprevistos que já seriam difíceis em condições normais, como morte, invalidez, doença grave ou afastamento do trabalho. Nesse ponto, o seguro de vida pode ser analisado menos como resposta ao ato de apostar e mais como instrumento de preservação mínima de renda e continuidade familiar. A discussão possível para o setor está em como manter a proteção acessível para públicos financeiramente pressionados, sem converter um comportamento de risco em rótulo automático de exclusão.

Dívidas sobrepostas tornam o prestamista mais sensível

No seguro prestamista, a relação é ainda mais próxima do problema financeiro. O produto existe para proteger operações de crédito em situações previstas em contrato, mas o aumento das apostas online pode tornar mais frequente a presença de consumidores com dívidas sobrepostas, renda comprometida e menor margem para absorver perdas. Isso abre uma discussão sobre comunicação e desenho do produto: o segurado precisa compreender o que está coberto, em quais situações a dívida pode ser quitada ou amortizada e quais eventos ficam fora da proteção. Para seguradoras e instituições financeiras, o desafio está em evitar que o prestamista seja vendido ou entendido como solução para qualquer desequilíbrio financeiro, quando sua função é proteger riscos específicos associados à capacidade de pagamento.

Proteger sem excluir será parte do desafio

A expansão das bets mostra que parte da população tem buscado nas apostas uma saída rápida para problemas de renda que são mais profundos do que o próprio jogo. Isso é importante para o seguro porque mexe com a capacidade de manter apólices, honrar dívidas e preservar algum amparo familiar em momentos de perda. No seguro de vida, a questão está em evitar que famílias já pressionadas fiquem ainda mais desprotegidas. No prestamista, está em garantir que o consumidor entenda exatamente que tipo de dívida e que tipo de evento estão cobertos. O tema das bets exige das seguradoras uma atuação capaz de reconhecer os efeitos financeiros desse comportamento sem reduzir milhões de pessoas a um marcador de risco.

Postado em
27/5/2026
 na categoria
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